Matriz Têxtil Insular integra uma forte componente de investigação. Este eixo é essencial para a execução do projeto na sua generalidade, e por isso, a ilha de Santiago foi o primeiro destino para identificar pessoas, lugares e práticas que guardam conhecimentos associados ao algodão, à sua transformação e ao seu ciclo.
A viagem foi marcada por encontros institucionais, incluindo no Herbário do Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento Agrário (INIDA), em São Jorge dos Órgãos, onde visitámos o arquivo de espécies de algodão provenientes de várias ilhas de Cabo Verde. O encontro permitiu observar e registar exemplares de Gossypium, aproximando a pesquisa documental e botânica do trabalho desenvolvido no terreno.
O interior da ilha de Santiago — Tchada Além, Assomada, Calheta, Pilão Cão — levou-nos a conhecer pessoas que, de alguma forma, ainda guardam na memória gestos e saberes que integram a feitura do Pano d’Obra. Os encontros com as pessoas guardiãs dos saberes têxteis trouxeram histórias vivas junto de Santinho, Totono, os tecelões José e Jorge e Romana de Pina. Entre teares, fusos, fios tingidos e plantas, emergiram experiências ligadas à tecelagem e ao tingimento natural, processos de preparação da tinta a partir da planta localmente conhecida como tintinha e reflexões sobre a continuidade e as dificuldades de transmissão do ofício.
Os trabalhos na ilha encerraram com registos, amostras e narrativas que iluminaram etapas muitas vezes invisíveis da produção têxtil. De regresso à cidade da Praia, numa visita ao Museu Etnográfico acedemos a objetos antigos que ecoam nas técnicas atuais do coletivo ni. A observação dos instrumentos ligados à transformação e ao tingimento do algodão permitiu também estabelecer relações com os processos que temos vindo a experimentar no Madeiral. Ainda na Praia, o tecelão Bêtu partilhou memórias da produção do Pano d’Obra e da aprendizagem com mestre Damásio. O seu testemunho ajudou-nos a reconstruir uma linha de transmissão entre Damásio e uma geração de tecelões formada até aos anos 1980, bem como a localizar a produção de alguns dos últimos Panos d’Obra nas décadas seguintes.